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sábado, 24 de dezembro de 2011

Há muito a ser feito

Não dá pra morrer agora:
Preciso domar um cavalo;
Tocar piano para uma platéia lotada;
Viajar para o outro lado do mundo;
Ser entrevistado por Jô Soares;
Escrever um livro.

Disseram que eu poderia ser feliz!
Não dá pra morrer agora:
Preciso catalogar todas  as espécies de borboletas existentes;
Matar um dragão;
Inventar uma receita inusitada;
Dançar na chuva;
Comer neve.

Disseram que eu poderia ser feliz!
Não dá para morrer agora:
Preciso compor minha música;
Correr em direção ao além;
Achar o pote de ouro do arco-íres;
Morar em uma casa de biscoitos;
Ser rei de alguma coisa;
Recitar poesisas.

Disseram que eu poderia ser feliz!
Não dá para morrer agora:
Preciso nadar no rio;
Mergulhar no mar;
Quebrar o braço;
Correr no campo;
Contar histórias;
Morrer de amores;
Ser amado.

Disseram que eu poderia ser feliz!

sábado, 10 de dezembro de 2011

As Pombas


Vai-se a primeira pomba despertada ... 
Vai-se outra mais ... mais outra ... enfim dezenas 

De pombas vão-se dos pombais, apenas 
Raia sanguínea e fresca a madrugada ...
 

E à tarde, quando a rígida nortada 

Sopra, aos pombais de novo elas, serenas, 
Ruflando as asas, sacudindo as penas, 

Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam, 
Os sonhos, um por um, céleres voam, 

Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam, 
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam, 

E eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia

Palavras! Palavras...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

E agora, José?




E agora, josé?

A festa acabou,

A luz apagou,

O povo sumiu,

A noite esfriou,

E agora, josé?
E agora, você?
Você que é sem nome,
Que zomba dos outros,
Você que faz versos,
Que ama, protesta?



E agora, josé?

Está sem mulher,

Está sem carinho,
Está sem discurso,
Já não pode beber,
Já não pode fumar,
Cuspir já não pode,
A noite esfriou,

O dia não veio,
O bonde não veio,
O riso não veio
Não veio a utopia
E tudo acabou
E tudo fugiu
E tudo mofou,



E agora, josé?

Sua doce palavra,

Seu instante de febre,
Sua gula e jejum,
Sua biblioteca,
Sua lavra de ouro,
Seu terno de vidro,
Sua incoerência,
Seu ódio - e agora?
Com a chave na mão

Quer abrir a porta,
Não existe porta;
Quer morrer no mar,
Mas o mar secou;
Quer ir para minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,

Se você gemesse,
Se você tocasse
A valsa vienense,
Se você dormisse,
Se você cansasse,
Se você morresse...
Mas você não morre,
Você é duro, josé!
Sozinho no escuro

Qual bicho-do-mato,
Sem teogonia,
Sem parede nua
Para se encostar,
Sem cavalo preto
Que fuja a galope,
Você marcha, josé!

José, para onde?

Você marcha José, José para onde?

Marcha José, José para onde?
José para onde?
Para onde?

E agora José?
José para onde?
E agora José?
Para onde?

Carlos Drummond de Andrade

Amanhã... Será?



Se aliança dissipar..
e sentença for só desamor!
a tormenta aumentará!
Quando uma comunidade viva!
Insurrece o valor da Paz,
endurecendo ternamente!

Todo biit, byte , e tera..
será força bruta a navegar,
será nossa herança em terra!

Amanhecerá!
De novo em nós!
Amanhã, será?

Amanhecerá!
De novo em nós!
Amanhã, será?

O "post" é voz que vos libertará.
Descendentes tantos insurgirão.
A arma, o réu, o véu que cairá.
Cravos e Tulipas bombardeiam,
um jardim novo se levantará.
O Jasmim urge do solo sem medo.

O sol reclama no Oriente.
Brada a lua que ilumina.
Rebelando orações e mentes.

Amanhecerá!
De novo em nós!
Amanhã, será?

O Teatro Mágico
Download da Música

A um Passarinho


Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?

Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!

Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!


Vinicius de Moraes